Salvatore D' Onofrio
O Autor
Dicionário de Cultura Básica
Pensar é Preciso
Literatura Ocidental
Forma e Sentido do Texto Literário
Pesquisando
 
Curso: História da Cultura
 
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Mitos sobre Jesus Cristo

            A Folha de S.Paulo (domingo 16/4: "Jesus  existiu?") analisa a versão eletrônica do livro "Nailed: dez mitos cristãos que mostram que Jesus nunca sequer existiu" do historiador e ativista ateu norte-americano David Fitzgerald. Negar a existência de Jesus Cristo é ir contra a famosa máxima "nada se cria, nada se destrói, tudo se transforma", formulada pelo pai da química moderna, Antoine Lavoisier, guilhotinado em 1794, vítima da Revolução Francesa. Os antigos romanos já diziam "nihil ex nihilo" (nada vem do nada). Por isso, a figura de Jesus é uma realidade histórica e não uma invenção de crentes.

            A polêmica sobre a vida, a pregação e os fatos milagrosos, atribuídos a Jesus Cristo, é justificada pelas contradições existentes nos evangelhos, canônicos e apócrifos, e em outros escritos de discípulos e devotos, que começaram a ser divulgados no fim do primeiro século depois de sua morte. O que não é fantasioso é que ele foi um judeu da seita ascética e messiânica dos Essênios, chamados também de Nazarenos, que viviam em comunidades, estudando os livros sagrados do Velho Testamento.

            Segundo meu entendimento, com a maturidade dos 30 anos, Jesus teria resolvido abandonar o deserto, achando mais útil ir para as cidades da Palestina divulgar a nova mensagem, fruto de longa meditação: substituir o Deus judaico do nacionalismo e do ódio pelo Deus universal do amor entre todos os homens da terra, sem distinção de raça, nação, cor da pele, nível social. Tal postura ideológica provocou a ira dos fariseus, outra seita judaica que, em conluio com o Governador romano Pôncio Pìlatos, determinou sua morte na cruz. Ao redor desta figura histórica foram-se criando mitos, considerando Jesus Cristo como o Messias esperado para salvar a humanidade, o Filho de Deus encarnado na Virgem Maria por obra do Espírito Santo, a terceira pessoa da Santíssima                                                      Trindade, fazedor de milagres. O Cristo histórico foi transformado numa divindade.

           

 

 


Religião e moralidade

            A reportagem da revista Veja (19/4) "Moral sem Deus?" trata das relações entre fé e valores humanos, rediscutindo a batida questão se é possível fazer o bem e evitar o mal sem acreditar na existência de Deus. A meu ver, a pergunta deveria ser invertida: é possível praticar a verdade, a justiça, o amor entre seres pensantes, se continuarmos a praticar dogmas registrados em escrituras consideradas sagradas: Bíblia, Alcorão, Vedas?

            A história nos dá exemplos de lutas horrorosas entre várias religiões: judeus e egípcios (ainda no Velho Testamento); cristãos e muçulmanos (na época das Cruzadas pela conquista de Jerusalém); católicos e protestantes (especialmente,  A Noite de São Bartolomeu, entre 23 e 24 de agosto de 1572: massacre de aproximadamente cinqüenta mil huguenotes ingleses, começado em Paris e continuado por meses em outras cidades da França); conflito entre xiitas e sunitas (desde a morte do Profeta Maomé, em 632, até hoje, especialmente na Síria). Sem falar dos horripilantes atos de terrorismo que vêm sendo perpetrados ultimamente no mundo todo, em nome de Alá, considerado pelo Islamismo como o único Deus verdadeiro, sendo os crentes de outras religiões os "infiéis" a serem convertidos ou destruídos.

            Como pensar na existência de uma moral religiosa perante tantas crueldades cometidas em nome de um Deus, que teria várias faces com ideologias tão diferentes? Precisaríamos seguir os mandamentos de Moisés, Jesus Cristo ou Maomé? Tal perplexidade faz com que a religião se torne a maior inimiga da ciência ética, que deveria estar em busca de uma moral universal e estritamente humana, sem apelar para prêmios ou castigos num outro mundo, o sobrenatural, de puros espíritos, que existe apenas na imaginação de crentes inconformados com a condição humana de sofrimento e morte.

            Eu não deveria roubar o que pertence ao meu semelhante, não porque é um pecado e irei para o Inferno mas, simplesmente, porque não gostaria de ser roubado. Não fazer aos outros o mal que não gostaria que fosse feito a mim mesmo é o "imperativo categórico", formulado pelo filósofo alemão Immanuel Kant (1724-1804).          Tal sistema ético, que privilegia o espírito da coletividade, do público sobre o privado, em lugar do egoísmo individual, se fosse praticado em todos os países, reduziria a injustiça social, a violência, a corrupção política, a miséria humana. Para melhorar o nível de civilização, mais útil do que a crença num Deus salvador, é a reflexão sobre nossa realidade. É preciso pensar com nossa própria cabeça, sem acreditar piamente no que pregam líderes religiosos ou políticos.


Alma e corpo (publicado no Diário da Região, em 2/3/17)

            Gostei do artigo de Antonio Carlos Del Nero (Diário da Região, 25/2) "Mens sana in corpore sano" (mente sadia num corpo sarado), que relaciona a sabedoria dos antigos romanos com o pensamento contemporâneo do médico-filósofo indiano Deepak Chopra, ao tratar do difícil mas fundamental assunto das relações entre corpo e mente, matéria e espírito. Um dos livros de Chopra, A Cura Quântica, tem como subtítulo "o poder da mente e da consciência na busca da saúde integral".

            O que me levou a refletir muito sobre o tema é que a consciência é apresentada quase como sinônimo de alma, espírito ou mente, a parte inteligente do ser humano que                                                                  não emerge ao nível das aparências, mas vai se formando desde nossa concepção no útero materno, anteriormente ao próprio nascimento, até à morte cerebral. Quer dizer que corpo e alma nascem juntos e que juntos evoluem, sendo inseparáveis.

            Se meu raciocínio estiver correto, a consciência (alma, espírito ou mente) é o produto de um órgão humano, o cérebro, cujas células, os neurônios, enviam informações a outros órgãos do nosso corpo, tendo a função de nos fazer pensar, amar, agir. Ora, a quantidade e a qualidade dos neurônios diferem conforme a idade, o gênero e a espécie de qualquer ser vivo. Acreditar na existência de uma alma já pronta e acabada, implantada por alguma divindade num corpo humano, sendo eterna por ser precedente ou subseqüente  à morte orgânica, é apenas uma questão de fé, sem nenhum fundamento racional ou científico.

            O filósofo alemão Ludwig Feuerbach (1804-1872), autor da famosa obra "A essência do Cristianismo", afirma que "o homem é aquilo que ele come", pois os alimentos, como educação e experiências de vida, metabolizam  nossos pensamentos. A situação material em que o homem vive influí de uma forma determinante na sua psique. O autoconhecimento, mais do que qualquer crença, é fundamental para melhorar o processo de envelhecimento e amenizar estados de estresse ou depressão.


A religião da honestidade  (publicado no Diário da Região: 16/2/16)

            Domingo passado, dia 14/2, o Diário da Região, pela reportagem “Honestidade ainda existe”, salienta algumas pessoas que praticam gestos de honestidade, como devolver objetos ou dinheiro, não tirar vantagem em prejuízo de colegas, observar normas de trânsito e de higiene pública, etc. Mas, infelizmente, essas são apenas exceções. O que predomina na nossa sociedade é a lei do Gerson: levar vantagens em tudo, apropriando-se do alheio. E o exemplo vem de cima: políticos que se apossam do dinheiro de nossos impostos para se enriquecerem ou capitalistas que exploram o trabalho humano.

            Recentemente, a imprensa divulgou os resultados de uma pesquisa, publicados na prestigiada revista científica “Nature” e resumidos no artigo da Folha de São Paulo (11/2) com o título “Estudo vê elo entre fé em Deus e caráter”.  Experiências feitas por antropólogos e psicólogos internacionais revelaram que a crença em divindades, que ameaçam os maldosos com castigos, doenças, cataclismos, torna os homens mais bonzinhos, melhorando seu caráter.

Esses pesquisadores descobriram o óbvio: é evidente que o medo do castigo, neste ou num hipotético outro mundo, é um fator redutor da criminalidade. Sem a ameaça da cadeia na terra ou do inferno num além, certamente a delinqüência seria menor. Medo e religião nascem juntos. Os antigos gregos, desconhecendo a origem meteorológica dos raios numa tempestade, pensavam que fossem setas de fogo que Zeus, o pai dos deuses, lançava contra os homens por pecados cometidos. Daí, rezas e sacrifícios para acalmar a ira divina.

Mas a tese de que a fé religiosa torna melhor a sociedade humana é contestada por outro grupo de estudiosos que salienta o perigo de provocar fanatismo e intolerância. Não podemos esquecer a atávica luta entre judeus e árabes pela ocupação da Palestina; as Cruzadas dos europeus para libertar Jerusalém do domínio muçulmano; as guerras dos cem anos entre católicos e protestantes; a recente barbárie sangrenta entre sunitas e xiitas. Os romanos diziam que a história é “magistra vitae”: perante os fatos não valem argumentos, nem estatísticas de antropólogos, sociólogos ou psicólogos.

A verdade inquestionável é que, atualmente, os povos mais desenvolvidos não são os mais religiosos, mas os que alcançaram um alto grau de cidadania pela prática da honestidade cívica. A etimologia da palavra honestidade, do latim “honos”, que significa honra, dignidade, caráter, indica a qualidade do ser verdadeiro, que não mente e não frauda, respeitando o direito do seu semelhante. Este princípio foi formalizado pelo filósofo prussiano Immanuel Kant (1724-1804), que chamou de “imperativo categórico” a necessidade de agir como se sua ação devesse se tornar uma lei universal. Quer dizer, não faça a outro o que não gostaria que acontecesse a você.

Essa máxima kantiana resume os dez mandamentos de Moisés, o pensamento filosófico de Sócrates e o legado do amor entre os homens deixado por Jesus Cristo, constituindo o fundamento ético que deveria guiar a conduta dos homens como indivíduos e como cidadãos. A honestidade deveria ser a característica de qualquer instituição. Infelizmente, a prática desta virtude é muito difícil, pois existem normas jurídicas e convenções políticas e sociais, enraizadas em certas culturas, que fazem prevalecer o egoísmo pessoal ou de grupos.

A luta para instituirmos a religião da honestidade na nossa sociedade deve iniciar na família e continuar nas escolas. Precisamos entender que nenhum ser nasce humano, mas se torna tal pelo desenvolvimento de um cérebro racional, que o distingue do animal que age apenas por instinto. O amor à coletividade é mais educativo do que o medo do castigo.

 

 


Zika e alma (publicado no Di[ario de 11/2/16)

            O renomado jornalista Hélio Schwartsman, no artigo “A essência das coisas” (Folha, 6//2), afirma que, se ele fosse mulher grávida, infectada pelo vírus da zika que pode provocar graves lesões cranianas num ser humano em gestação, não hesitariaem abortar. E isso porque ele pertence ao pequeno número de pessoas que não acredita na existência da alma separada do corpo, na intervenção de seres sobrenaturais na vida humana, em valores essenciais e absolutos, revelados por divindades a presumidos profetas, tipo Moisés ou Maomé.

O estudo da biologia nos mostra que o embrião, em suas origens e até o fim do terceiro mês da gravidez, é apenas um amontoado de células em evolução, adquirindo características humanas paulatinamente, na medida em que se formar a massa cerebral que lhe possibilite sentir e pensar.  Seria necessário que os crentes na existência de uma alma ou espírito, sem o suporte material do cérebro, nos fizessem entender em que momento se daria a intervenção divina para colocar uma alma num corpo.  Quando se dá a cópula sexual, quando o espermatozóide fecunda o óvulo, quando o bebê nasce ou é batizado?

O fato de que, nos primeiros meses de gestação, o feto ainda não adquiriu características humanas, permite a nações ideologicamente mais desenvolvidas não considerar o aborto como um crime, pois se trata da eliminação de um ser ainda não humano. Cabe ao Estado, cuja Constituição proclama a laicidade, não sucumbir a preconceitos religiosos, protegendo o ser humano somente a partir do momento em que vem à luz, adquirindo direito de cidadania.  Enquanto estiver no seu ventre, cabe apenas à mulher decidir se vai querer o nascimento de um ser humano indesejado, especialmente quando estiver em jogo a integridade física do feto ou da gestante. Em tais condições, em lugar de criminalizar o aborto, as autoridades públicas deveriam ajudar a desafortunada gestante a superar o dilema, cientes de que o nascimento de uma criança não programado é prejudicial para ela própria, para pais, parentes, a sociedade como um todo.                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                            .


Apocalipse

            As recentes atrocidades que estão cometendo árabes, judeus, cristãos e muçulmanos no Oriente Médio nos lembram os massacres no primeiro século da era cristã, quando os fiéis da nova religião eram sacrificados pelos romanos politeístas, inclusive destruindo o templo de Jerusalém, em 70 d.C. Mas precisa refletir sobre o fato de que a perseguição promovida pelos Imperadores de Roma não deixou de ser uma resposta aos cristãos da Palestina que foram até à capital da Itália impor o culto de Jesus Cristo como único Deus, desprezando a pluralidade das divindades tradicionais (Júpiter, Vênus, Ísis, Osíris etc.) veneradas pelos povos de cultura greco-romana ou egípcia. Supõe-se que os habitantes da antiga Itália não se teriam se oposto em colocar mais uma divindade, “o Deus que faltava” (como Fernando Pessoa definiu Cristo), no seu Panteão, o templo que abrigava todos os deuses nacionais e estrangeiros. Este monumento ainda hoje é muito visitadoem Roma. Pensando com rigor histórico, os cristãos foram os primeiros a não respeitar a liberdade de culto dos pagãos, ao querer impor apenas seu Deus como único e verdadeiro.

            O problema crucial de todas as crenças no sobrenatural é a presunção e a intolerância. Fanáticos de uma religião se sentem na obrigação moral de impor dogmas de fé e de ética, apregoados pelos seus profetas como absolutos, pois inquestionáveis. A meu ver, o que provoca o atraso da humanidade é a crença nas palavras de homens que têm a pretensão de impor doutrinas e normas de vida em nome de um Deus. Vou tomar, apenas como exemplo, o Apóstolo João, autor do “Apocalipse”, o último livro do Novo Testamento, considerado sagrado pela Igreja Católica. Estava ele desterrado em Patmos, pequena ilha no mar Egeu, na costa da Ásia Menor, por volta do ano 95, quando teria recebido uma revelação (em grego “apocalipse”) de Jesus Cristo, que lhe mostrara a luta entre anjos e demônios e o iminente fim do mundo, pois logo haveria o Juízo Final com a ressurreição dos corpos, a premiação dos bons e a condenação dos maus.

Se os Quatro Cavaleiros do Apocalipse (símbolos da Guerra, Peste, Fome e Morte), cuja chegada foi profetizada como imediata (e já se passaram quase dois milênios sem que o mundo acabasse!), como podemos ainda acreditar que a palavra de João Evangelista seja divina? Na verdade, o livro do Apocalipse pertence a um gênero literário especial, chamado escatológico (em grego “fim dos tempos”), próprio da época de perseguições religiosas. Através de imagens simbólicas, projeta-se a existência de uma vida futura sobrenatural, a fim de consolar ofendidos e deprimidos, infundindo-lhes coragem com a certeza de que a vitória final será dos bons. Trata-se, portanto, de ficção de auto-ajuda e não de verdade divina.

A literatura apocalíptica existe antes e depois do Apóstolo João. O profeta Daniel, do Velho Testamento, figura proeminente da corte de Babilônia, já escrevera sobre visões apocalípticas. No sétimo século d.C,  Maomé, considerado o terceiro e último Profeta depois de Moisés e Jesus Cristo, fundou a religião islâmica, estimulado por uma presumida aparição do arcanjo Gabriel. Curiosa é a lenda sobre sua morte: acometido de um mal súbito, no ano de 632, da Cúpula do Rochedo em Jerusalém teria ascendido ao céu envolvido numa nuvem. É lícito perguntar como isso foi possível se Maomé nunca esteve em Jerusalém e a referida mesquita foi construída pelo califa Abd al-Malik em 669, bem depois da morte do Profeta, portanto. Os crentes de qualquer religião estão propensos a acreditar mais na palavra dos seguidores de profetas do que no fato histórico ou na verdade científica. Pessoalmente, Moisés, Cristo e Maomé não deixaram nada por escrito.

Seria melhor que, em lugar de esperarmos a salvação por parte de divindades ou  políticos carismáticos, nos esforçássemos em construir uma democracia fundamentada na justiça social e na ajuda mútua entre cidadãos e nações, pois ninguém pode ser feliz no meio da miséria. A persistente guerra entre o ódio histórico de judeus contra árabes e a Jihad islâmica, que prega a destruição do Estado de Israel, constitui o verdadeiro apocalipse moderno. O preceito bíblico “olho por olho, dente por dente” deixa todo o mundo cego e banguela.

 

 


A origem do Universo

            A revista Veja de 19/03, na secção Ciência, com o título “Mais Big do que Bang”, nos informa sobre uma recente descoberta científica acerca da origem do Universo: o que pensávamos ter acontecido há mais de 13 bilhões de anos a.A (antes do Agora) não foi uma “explosão”, mas uma “expansão” de matéria e energia, a partir de um minúsculo núcleo primordial. A distinção entre explosão e expansão faz toda a diferença, pois nos ajuda a entender como o Universo se formou e funciona. Pesquisadores do Centro de Astrofísica de Harvard conseguiram provas de que o que deu origem às atuais formas microcósmicas e macrocósmicas (poeira de estrelas, bactérias da terra, planetas, constelações) não foi um processo explosivo e instantâneo, sem ordem alguma, mas radiações de ondas que se espalharam e continuam aumentando o universo, mantendo relações entre si, em obediência à lei da gravidade.

A existência de ondas gravitacionais já vinha sendo preconizada pelo cientista Albert Einstein em artigos publicados nos “Anais de Física”, a partir de 1905.  O genial astrofísico alemão, de etnia judaica e naturalizado norte-americano, contesta o princípio da mecânica tradicional, fundamentada sobre o determinismo (o repouso absoluto), ao demonstrar que tudo é movimento. Pela teoria da relatividade, Einstein encontra equivalências entre massa e energia, tempo e espaço. O que percebemos como vazio, na verdade, é apenas um falso vácuo, um campo de energia escura (porque invisível), uma força que mantém atraído entre si todos os corpos terrestres e celestes, pelo vertiginoso movimento gravitacional. É a moderna mecânica quântica que, estudando as partículas subatômicas, vem substituindo o sistema ptolemaico do antigo Egito, que colocava a Terra fixa no centro do universo, e o heliocentrismo de Newton, Copérnico e Galileu, na Renascença européia, que descobriram a rotação do nosso planeta ao redor de si próprio e do Sol.

Por falta de conhecimento ou de reflexão, não percebemos que andamos de cabeça para baixo e os oceanos não derramam suas águas, apesar de rodar vertiginosamente. A maioria do povo ainda acredita no mito da criação do mundo em sete dias, tendo Jeová, o deus dos judeus, feito a Luz no primeiro dia e o Sol, no quarto dia. Seria lícito perguntar a Moisés ou a outros profetas da antiguidade como é possível existir luz sem o sol! Estas e outras contradições às descobertas científicas, à lógica mental, aos fatos históricos, ao bom senso, são atribuídas pelos crentes a erros humanos pelo atraso civilizacional e não às divindades. Mas, se é assim, por que ainda considerar o Velho Testamento dos cristãos ou o Corão dos muçulmanos, como obras sagradas, escritas sob inspiração divina?

O citado cientista Einstein, pressionado por rabinos a se pronunciar sobre sua religiosidade, afirmou que, perante as maravilhas do microcosmo e do macrocosmo, podia até admitir a existência de um arquiteto do universo, mas que este ente sobrenatural se preocupasse com o mundo existente, isso seria impensável. De fato, se Deus é imaginado como o todo poderoso e a suma misericórdia, como explicar terremotos e tsunamis, secas e enchentes, sofrimento e morte, políticos corruptos, injustiça social, a miséria na terra? Ninguém pode negar que ainda existem mistérios no universo. Não sabemos se havia algo antes do Big Bang e até quando continuará a expansão das galáxias. O tempo teve um princípio e terá um fim ou tudo é eterno, existindo apenas transformações? Como saber, se não conseguimos sequer descobrir o paradeiro de um avião de várias toneladas, perdido no espaço, levando no seu bojo para a morte centenas de seres humanos?

            


Amor humano

“Amai-vos uns aos outros”

A frase acima, mais do que uma exortação, deveria ser considerada um preceito, uma imposição social. A sentença encontra-se nos evangelhos do Novo Testamento, atribuída a Jesus Cristo, o maior gênio da humanidade, a meu ver. Ele teve o inefável mérito de revolucionar o conceito de divindade, substituindo o deus do Velho Testamento, o Jeová dos judeus, discricionário (protetor apenas de um povo) e vingativo (“olho por olho, dente por dente”), por um deus Pai de todos os povos. Substituir o ódio pelo amor nas relações de qualquer agrupamento social, inclusive entre etnias diferentes, significa alcançar a essência da humanidade, que consiste, conforme minha opinião, em superar o egoísmo individual e natural, a lei da selva, própria dos seres irracionais.

Sabemos muito pouco acerca da figura histórica de Jesus Cristo, pois ele, como os outros dois profetas do monoteísmo abraâmico (Moisés e Maomé), não deixou escrito algum. As desencontradas notícias sobre sua vida e seus feitos nos chegaram pelo relato de discípulos, admiradores, historiadores judaicos, gregos e romanos, decênios após sua morte. Os Evangelhos de MateusMarcosLucas e João, os considerados canônicos pela religião católica, foram reconhecidos apenas por volta do ano 150 d.C. como parte do Novo Testamento. Por recentes pesquisas arqueológicas, foram encontrados mais 112 textos, em códigos de papiro, interrados nas proximidades do Mar Morto, inclusive os evangelhos de Judas e de Maria Madalena.

Na verdade, não sabemos ao certo quem escreveu os evangelhos e os outros livros que falam de Jesus. Durante a passagem da oralidade para a escrita, sua difusão circulou no anonimato. O que podemos supor como historicamente verdadeiro é que Cristo foi um judeu culto (aos doze anos discutia com os Doutores da Lei, no templo de Jerusalém); que passou a maior parte de sua vida em meditação no deserto, junto à seita dos essênios, que viviam em sociedade comunitária; que aos 30 anos sentiu uma necessidade espiritual de voltar à vida da cidade, pregando o desapego aos bens materiais, o perdão dos pecados, o amor ao próximo. Ao redor desta figura histórica, aos poucos, foram se criando mitos, transformados em dogmas de fé. Jesus Cristo, embora fosse uma figura carismática, nunca afirmou ser o Messias prometido pelos profetas do Velho Testamento, o Filho de Deus Pai, salvador da humanidade pela reparação do pecado original e fundador de uma nova religião.

Como já foi dito, Cristo não pertence ao cristianismo, mas à humanidade toda, pela sua mensagem de amor, entendido não como caridade, esmola ou sentimento piegues, mas como respeito recíproco entre cidadãos.  Qualquer homem com suficiente lucidez mental deveria perceber que ninguém pode ser feliz no meio da miséria, pois ela é fruto da ignorância e da iniqüidade, gerando ódio e violência. Mas, infelizmente, esta mensagem de Jesus não foi acatada pela maioria dos povos. Após mais de dois milênios, continuam as guerras entre etnias e credos diferentes, a violência na cidade e no campo, a corrupção política e a impunidade, a injustiça social, a falta de planejamento familiar e de assistência às crianças, causa primordial do avanço do narcotráfico, o câncer da vida familiar e social. Para melhorar nossa vida, em lugar de esperarmos ajuda de ídolos religiosos ou de líderes políticos, seria mais proveitoso lutarmos para a construção de uma cidadania de verdade com base numa democracia participativa. A busca da verdade existencial, que poderia propiciar paz e amor entre os homens, exige mais pensamento e reflexão do que crença!

             


Nobel e religião

            O artigo do jornalista Hélio Schwartsman “Demografia do Nobel” (Folha,10/08/2013), comentando a tese do iconoclasta biólogo e escritor britânico Richard Dawkins sobre a supremacia intelectual do povo judeu pela conquista de muitos prêmios Nobel, tem suscitado fervorosa polêmica, registrada no Painel do Leitor. Roberto Castro, da cidade de São Paulo, releva acertadamente que tal sucesso se deve à diáspora. Em verdade, nenhum judeu que se tornou famoso viveu no estado de Jerusalém ou na Palestina, tomando parte na eterna briga entre árabes e judeus por um pedaço de deserto. Marx, Freud, Kafka, Einstein, de etnia judaica, viveram, estudaram e pesquisaram na Europa ou nos Estados Unidos da América de colonização britânica.  Mas, ao afirmar que “a cultura ocidental cristã é o berço da ciência moderna”, o leitor citado se esquece da sangrenta perseguição religiosa que sofreram os cientistas da Renascença italiana (Galileu, Giordano Bruno e tantos outros) quando descobriram que o planeta Terra era redondo e girava ao seu redor e ao redor do Sol ou quando Darwin, ao publicar “A origem das espécies”, em 1859, continuou contestando o que está escrito na Bíblia sobre a criação do mundo, demonstrando a origem evolutiva de todos os seres orgânicos. Nenhuma religião pode ser considerada berço da ciência, pois todas elas se fundamentam em dogmas, doutrinas pressupostamente reveladas por divindades e, portanto, indiscutíveis, enquanto a ciência está continuamente em busca da verdade existencial.


Ainda sobre aborto

Não fique triste, cara Rita Cecato (ref: carta do Leitor, Diário da Região, 26/03/13): ninguém está obrigando a senhora a abortar. A proposta da nova lei quer apenas evitar uma gravidez indesejada, possibilitando a uma mulher, que teve a infelicidade de fazer amor ou apenas sexo sem proteção, reparar o dano cometido, cujas conseqüências poderiam ser deletérias para ela própria (interromper estudo ou trabalho), para quem vai nascer (privado de um lar econômico e afetivamente estruturado) e para a sociedade (que deveria amparar uma criança desprotegida). Trata-se de uma questão de ordem social, mais do que jurídica, moral ou religiosa.

Eu respeito sua crença na existência de espíritos desencarnados que transmigram de um corpo para outro, como a fé de pessoas de outras religiões que admitem a existência de mundos sobrenaturais ou a intervenção do divino no humano. Por isso, gostaria que a senhora também respeitasse minha descrença em tudo isso, pois ninguém é dono da verdade. Como escreveu o poeta e filósofo espanhol Miguel de Unamuno, “a fé consiste, não em acreditar naquilo que não vimos, mas em criar aquilo que não vemos", confirmando a tese antiga de que são os homens a criar os deuses e não vice-versa. Após muitos anos de estudo e experiência de vida, não consigo mais imaginar divindades preocupadas com nossas desgraças. Passei, então, a acreditar numa espiritualidade apenas humana, na aceitação da dor e da morte como inerentes a nossa condição natural, no amor e na compreensão entre todos os habitantes deste planeta, guiados pela verdade histórica, o sentimento de justiça e, sobretudo, o bom senso.

Por que, então, deixar de ajudar uma mulher que não deseja continuar grávida, se esta for sua vontade e ela não pratica uma religião que considere isso culpa ou pecado imperdoável? Se a sociedade brasileira já aceitou o divórcio, também proibido por lei considerada divina (“o que Deus une o homem não pode separar”), por que não permitir também o aborto voluntário? O que nos falta é pensar com nossa própria cabeça de seres inteligentes e ter coerência em nossos atos, no lugar de acreditar piamente no que pregam (mas não fazem!) ídolos religiosos e líderes políticos. Hipócritas são as pessoas que acreditam em Deus e fazem sexo fora do casamento, visto que o prazer carnal é proibido pela Escritura de todas as religiões.


Ateísmo

A resposta à costumeira pergunta de gente religiosa “o que leva uma pessoa a não acreditar em Deus?”, já foi dada há mais de 2300 anos atrás, quando sábios gregos, como Sócrates, Platão, Aristóteles, Epicuro, começaram a questionar a eficácia da crença nas divindades. O mais contundente foi este último, o pai da doutrina ético-filosófica chamada de Epicurismo, que prega a busca da felicidade nesta terra, pois a existência do um mundo sobrenatural não deixa de ser apenas uma hipótese desejável, mas fantasiosa. Face à ocorrência de cataclismos naturais, da morte e do sofrimento humano, ele se pergunta o que um deus estaria fazendo. Seu argumento para negar a possibilidade da existência de um ser sobrenatural, tido como criador e provedor, a meu ver, até agora, não foi eficientemente contestado:

“Ou Deus pode e não quer evitar o mal: então não é bom;

ou quer mas não pode: então não é onipotente.

Em cada qual das duas hipóteses: ele não existe!”

Na era moderna fica ainda mais difícil acreditar em entidades sobrenaturais, face ao amadurecimento do espírito reflexivo e às descobertas científicas. As três grandes religiões monoteístas, que se sucederam ao politeísmo greco-romano, Judaísmo,  Cristianismo (em todas as versões do Catolicismo e do Protestantismo) e Islamismo (xiitas e sunitas), estão ligadas ao patriarca Abraão, que viveu numa época (há uns 4000 anos) em que ainda se imaginava a Terra como centro do universo, uma plataforma chata e fixa entre o Céu no alto e o Inferno em baixo.

 Só a partir da Renascença, com a invenção de bússolas e telescópios, foi verificado que a Terra era apenas um minúsculo planeta girando ao redor do sol, uma estrela de uma imensa galáxia. Depois veio Darwin com sua “Origem das Espécies” (1859), a substituir o dogma da criação pelo princípio da evolução, com base na lei da seleção natural. Mais recentemente, a física quântica está demonstrando que não existe o vazio, mas apenas o vácuo, tempo e espaço sendo inseparáveis: teoria da relatividade, formulada por Einstein, o maior gênio da astrofísica moderna que, argüido por um rabino sobre a existência de Deus, respondeu: mesmo se existisse um Arquiteto do Universo, ele não estaria preocupado com os problemas humanos.

A neurociência, por sua vez, está confirmando a teoria do “ilemorfismo”, a conjunção inseparável da matéria (ilê) de sua forma (morfê = idéia, espírito ou alma), de que já falava o filósofo grego Aristóteles, discordando de seu mestre Platão que imaginava o mundo das idéias existindo fora da nossa realidade. Para Aristóteles, a parte espiritual do homem (a alma) é distinta, mas não separável de sua parte material (o corpo). Portanto, com a morte cerebral e a destruição dos neurônios, não existindo mais atividade mental, acaba nossa espiritualidade.  Pesquisas recentes estão demonstrando que doenças cerebrais alteram o comportamento humano, pois há uma relação profunda entre a localização do crânio afetado e idéias e sentimentos do doente. Se a alma, a parte espiritual do ser humano, fosse independente do corpo, nele inserida por intervenção divina, não poderia mudar em dependência de idade, cultura ou um AVC qualquer.

Revertendo a pergunta dos crentes, um agnóstico ou ateu indagaria: o que leva uma pessoa a acreditar na existência de espíritos separados do corpo, de almas de outro mundo que transmigram de um corpo para outro? Onde estariam estocadas as almas dos atuais sete bilhões de seres humanos e os espíritos que irão se incorporar nos milhares de pessoas que nascem a cada segundo, no mundo todo? Por que o fabuloso Arquiteto do Universo teria criado bilhões de galáxias, rodando entre si vertiginosamente e ameaçando o minúsculo planeta Terra, que pode se destruído pela queda de algum asteróide? A meu ver, o Espiritismo, assim como outras religiões, se fundamenta numa crença irracional, pois o sobrenatural existe apenas na imaginação, no sonho de superar as agruras da vida. Daí que, um cidadão, junto com o direito de acreditar nos ensinamentos do profeta que quiser (Moisés, Buda, Cristo, Maomé ou Allan Kardec), tem o dever de respeitar a fé do próximo, inclusive do ateu, que procura a verdade encontrável apenas na realidade em que vivemos.

 


Sacrifício ou covardia?

            A renúncia do papa Bento 16 causa estranhamento pela sua intrínseca contradição. Conforme a doutrina católica, quem escolhe o Papa não são os Cardeais fechados no Conclave, mas o Espírito Santo que os ilumina. É nisso que está fundamentado o dogma da “infalibilidade” do Papa, quando fala ex cattedra sobre fé e costumes. Ele é considerado um ser humano especial, pois ungido por Deus, assim como são tidos Moisés, Cristo, Maomé e profetas de outras religiões. Se, portanto, ele assumiu o cargo de Sumo Pontífice, não por vontade própria, mas por desígnio divino, não poderia renunciar, sem cometer um gravíssimo pecado. Assim entendeu o poeta italiano Dante Alighieri, o autor da Divina Comédia, ao colocar no Inferno, no círculo dos covardes, o primeiro e único papa que renunciou espontaneamente ao Pontificado, Celestino V, no longínquo ano de 1294:

            “che fece per viltà il gran rifiuto”

(aquele que fez por velhacaria a grande recusa): canto III, v. 60.

A meu ver, mais do que covardia ou fraqueza física devida à idade ou doença, foi uma crise de consciência que levou Joseph Ratzinger a renunciar ao Papado. Sendo um ser humano dedicado ao estudo, sua mente extremamente culta, inteligente e crítica deve tê-lo levado a questionar a eficácia de seu ministério. Sua saída acusa o fracasso em apaziguar as correntes conservadoras e revolucionárias dentro do próprio Vaticano, em reprimir o apego ao poder e ao dinheiro, como também a prática da pedofilia de cardeais, bispos e sacerdotes. Outro motivo pode ter sido a impotência em atender aos anseios da sociedade moderna a favor da liberação do divórcio, do aborto, da homossexualidade, do celibato eclesiástico, da ordenação de mulheres, do uso de contraceptivos, da pesquisa com células-tronco.

            A revista Veja desta semana (20/02/2013) dedica a reportagem de capa ao assunto da renúncia do papa com o título: “O sacrifício de Bento XVI para salvar a Igreja”, na expectativa de que outro papa, mais jovem, tenha forças suficientes para enfrentar o ninho de corvos que habita o Vaticano, relacionados com o triste espetáculo de um banqueiro enforcado, um mafioso envenenado, um mordomo traindo a confiança do Sumo Pontífice.  Leda ilusão! Não será a troca de um homem no mais alto poder do Pontificado a sanar a decomposição moral da Igreja Católica. Mais do que o indivíduo, errado é o sistema, a estrutura eclesiástica. A renúncia de Bento 16 deixa às claras que no Vaticano acontece o mesmo que se encontra no governo de Estados dominados pelo autoritarismo: corrupção, impunidade, círculos de poder, proteção de privilegiados, exploração da ignorância e da miséria do povo para conseguir votos, substituição da justiça pela caridade.

O ex-padre franciscano Leonardo Boff, (antes amigo e mais tarde desafeto de Bento 16), expoente da vanguarda católica brasileira de idéias socialistas, denominada “Teologia da Libertação”, diz a Patrícia Britto (Folha 15/02/2013): “a Igreja precisa de pontífice mais pastor que professor”. Peço desculpas para pensar exatamente o oposto: o povo não é uma manada de ovelhas que precisa ser guiada por um pastor, acreditando em falsas promessas e sendo constantemente vítima de hipocrisias. O ser humano que renuncia a pensar com sua própria cabeça, a refletir sobre religião, moral, política, ciência, arte, deve ser considerado igual a um animal ou a uma criança que, não tendo discernimento próprio, se deixa levar apenas pelo instinto ou pela mão de algum alucinado ou espertalhão. Pena que Ratzinger, no estilo de Getúlio Vargas ou Jânio Quadros, não tivera a coragem de revelar publicamente as razões ocultas que o induziram a demitir-se do cargo. Isso sim, chutando o balde, teria contribuído para a renovação dos costumes religiosos e políticos. Daí pensarmos mais em covardia do que em sacrifício.


O mito de JÚPITER 

 “O Estado sou Eu” (Luís XIV)

Zeus na Grécia e Júpiter em Roma, o maior personagem da mitologia greco-latina foi definido pelo poeta grego Homero como “o pai dos deuses e dos homens”. A “história” mítica de Júpiter é muito semelhante à de seu pai Saturno (Cronos), o que salienta o caráter repetitivo dos mitos. Como Saturno desposou a irmã Cibele (A Grande Mãe), assim Júpiter casou-se com a irmã Juno (Hera). Mas, além deste matrimônio "legítimo", foram atribuídas a Zeus várias relações extraconjugais com deusas, ninfas e mulheres mortais, sendo inumerável sua prole. Sua fama de conquistador incorrigível aparece artisticamente retratada na comédia Anfitrião, do escritor romano Plauto, encenada no Brasil pela companhia teatral de Tônia Carrero e Paulo Autran com o título “Um deus dormiu lá em casa”.

A peça narra o estratagema usado por Júpiter para seduzir a linda e virtuosa Alcmena, uma princesa de Micenas, casada com o soldado Anfitrião. Usando do seu poder divino, fez com que o jovem esposo fosse para a guerra. A seguir, tomando a figura de Anfitrião, Júpiter apareceu a Alcmena e fez amor com ela. Na manhã seguinte, o marido verdadeiro estranhou a frieza sexual de Alcmena. Esta, então, disse-lhe que estava exausta, pois passara com ele tórridas horas de sexo quando, na noite anterior, o marido, ao voltar da guerra, lhe trouxera o rico colar que estava em cima da cômoda. A comédia termina com a revelação do engano, inocentando Alcmena pelo adultério. Na cultura ocidental, o personagem Anfitrião passou a significar o hospedeiro, aquele que faz as honras de casa.

O pai dos deuses tinha como atributos principais a onipotência e a previdência. A iconografia o representa como homem maduro, majestoso, barbudo, que tem como emblema o raio (símbolo do domínio sobre as forças atmosféricas e de sua força vingativa), o cetro (o poder) e a águia (a longividência). Na Psicologia, o mito de Júpiter passou a exprimir o arquétipo do chefe da família patriarcal, denominando "complexo de Júpiter" à tendência do subconsciente ao autoritarismo, que pode se encontrar na figura do governante, do pai, do professor, de qualquer chefe, enfim. O abuso do poder pode criar uma neurose, que ataca principalmente os políticos. Todo autoritarismo, de esquerda ou de direita, acaba estabelecendo relações desumanas, estimulando a corrupção e a violência.

O despotismo se encontra não apenas nos governos absolutistas (monarquias hereditárias, ditaduras militares, oligarquias religiosas), mas também em regimes democráticos. No Brasil, podemos apontar casos recentes de manifestação pública do mito de Júpiter: um coronel do exército que interrompe a decolagem de um avião civil e ordena que dois passageiros cedam seus lugares para ele e a esposa; um juiz do Supremo Tribunal que manda calar a boca a um depoente numa seção de CPI em pleno Parlamento; um Ministro de Estado que solicita a quebra do sigilo bancário de um caseiro que o desmentiu; um Presidente da República que usa a Máquina do Estado (o dinheiro dos contribuintes) para fazer sua propaganda eleitoral.

Outras formas de atualização do mito de Júpiter podem ser encontradas no bullyng americano e na ação dos pitboys cariocas: um tipo de comportamento cruel e ameaçador, muito usado entre traficantes de drogas, marginais, presidiários; pois a postura jupteriana é muito mais generalizada do que se possa pensar. Encontra-se na violência familiar e na prepotência dos poderosos, como também nos garotos musculosos que, especialmente depois de beber, assediam mocinhas em boates, tentando fazer o que elas não querem. Enfim, sofre do complexo de Júpiter todo o ser humano que lança mão da lei da selva, da razão do mais forte, não sendo educado a respeitar o direito e a vontade do semelhante. É uma vergonha para todo o gênero humano a recente condenação à morte de Abdul Rahman, do Afeganistão, por rejeitar a fé islâmica. Que todos os fanáticos do mundo reflitam sobre o que disse Napoleão: “a maior parte daqueles que não querem ser oprimidos quer ser opressora”.


Mito e Realidade 

“O mito é o nada que é tudo” (Fernando Pessoa)

No artigo anterior, apresentamos o mito de Júpiter como arquétipo da prepotência e do autoritarismo patriarcal. Segue a análise de outros mitos fecundadores da nossa civilização: Apolo, Dioniso, Édipo, Afrodite, Hércules etc. Antes, porém, tentaremos definir o mito em geral. O termo grego mythos significa uma “história” fantástica, de origem anônima e coletiva, inventada para tentar explicar fenômenos naturais ou comportamentos existenciais, anteriormente ao avanço da filosofia e das ciências. Assim, por exemplo, o povo grego primitivo, não conhecendo a natureza do raio, imaginava ser uma seta incandescente de Júpiter, fabricada por Vulcano, o deus do fogo, pela qual o pai dos deuses punia os homens faltosos. A narrativa mítica apresenta aspectos divinos de acordo com concepções antropomórficas da natureza cósmica e da vida humana. Contrariamente ao que nos ensinam as diferentes religiões, não é Deus que cria os homens, mas são estes a criarem deuses a sua imagem e semelhança. Na África, a imagem da Virgem Maria é de cor preta. As divindades são apenas projeções do inconsciente coletivo, que inventa figuras transcendentais para expressar plasticamente seus desejos e seus temores.

Mas o mito, apesar de inverossímil, não deixa de ser uma “crença-verdade”. O estudioso Mircea Eliade, na famosa obra Mito e Realidade, afirma que a narrativa mítica é considerada verdadeira, uma vez que o mito, depois de criado, passa a ser objeto do culto popular, especialmente nas sociedades mais primitivas. Ele é verdadeiro porque é vivido através dos atos litúrgicos. Os rituais, ao rememorarem as façanhas realizadas pelas divindades, exercem um grande fascínio sobre os fiéis, que se sentem tomados por um poder sagrado. Com a passagem da tradição oral para a escrita, a palavra mítica adquire o caráter de dogma de fé, não admitindo contestação:

“o que está escrito, é a verdade”,

mesmo quando o mito contraria lógica e verdade histórica (se os fatos contradizem o que está escrito no livro sagrado, danem-se os fatos!), pois a criação da lenda é anterior à formação da consciência reflexiva. Trata-se de uma “protofilosofia”, porque a resposta à pergunta do homem sobre o universo e seus fenômenos é dada não pelo pensamento conceptual, mas pela fantasia criadora de imagens. Daí a relação profunda entre mito, poesia e infância, categorias estas que superam os limites do tempo e do espaço.

Com a evolução da sociedade, o homem começa a pensar e a reflexão consagra o fim da inocência mítica. Aos poucos, vai acontecendo a separação entre o eu, Deus e o mundo, concepções não distintas na época mítica. Uma vez perdidas as verdades coletivas e absolutas do estágio mítico, cada homem é obrigado a descobrir seus próprios valores de vida. O mito, não mais vivido, perde sua sacralidade e torna-se apenas uma lenda representada artisticamente no poema, no conto, no teatro. Com o progresso das ciências, o papel do mito passa a ser exercido por poetas e artistas. A estes cabe lançar mão da fantasia para criar mundos imaginários, onde as aspirações do inconsciente coletivo possam se realizar.

O mito pode ser definido como uma “macro-metáfora”, pois é a criação de uma história ficcional que estabelece parentescos entre realidades diferentes, para captar parcelas de sentido do mundo. Em contrapartida, qualquer texto de arte literária encerra aspectos míticos pelo concurso da imaginação, que desafia a lógica existencial. Os arquétipos míticos da luta e do triunfo do princípio do bem sobre o princípio do mal se encontram na concepção do herói épico, na idealização do cavaleiro andante da novela medieval, na inspiração do romance de amor e de aventura, na literatura de cordel, no duelo entre o detetive e o criminoso no conto policial, na configuração do herói da ficção científica, na elaboração de fábulas e personagens da telenovela. Fernando Pessoa, no poema Ulisses, ao recontar a lenda do herói grego que, durante a viagem de volta da Guerra de Tróia, teria fundado a cidade de Lisboa (evolução fonética do nome Ulissipona, “cidade de Ulisses”), afirma que o mito é o “nada” (pois não existiu no plano histórico), mas é “tudo”, porque foi a figura aventurosa do herói grego que estimulou os lusitanos a desbravar “os mares nunca dantes navegados”, deslocando o eixo do comércio do Mediterrâneo para o Atlântico.


O mito do OLIMPO 

"Mens sana in corpore sano" (Mente boa num corpo sadio)

A cidade de Olympia era um centro religioso do Peloponeso, onde havia o majestoso Santuário a Zeus, chamado “Júpiter Olímpico”. O nome “Olimpo”, originariamente, foi o de várias montanhas da Grécia. Com o passar do tempo, o termo se desvinculou de um monte específico, para indicar um lugar utópico, a morada dos deuses, correspondente ao Éden bíblico, ao Paraíso cristão, ao “Pasárgada” do poeta Manuel Bandeira, estabelecendo-se, assim, uma relação direta entre o culto do corpo e a felicidade humana. As disputas esportivas começaram no séc. VII a.C., apenas com a corrida no estádio, depois se acrescentaram outros desafios, como o pentatlo, a corrida de carros e até representações dramáticas. Os jogos olímpicos eram celebrados a cada quatro anos, durante uma semana do mês de julho. Eram anunciados previamente por mensageiros enviados por toda a Grécia. O apogeu das Olimpíadas antigas deu-se no séc. V a.C., junto com o esplendor de toda a cultura da Grécia, especialmente no governo de Péricles. Os vencedores das várias categorias esportivas eram coroados com folhas de louro, seus corpos imortalizados em estátuas e seu valor exaltado por poetas (“epinícios”).

Os jogos olímpicos foram realizados até o ano de 393 d.C., de uma forma ininterrupta, existindo a chamada “trégua olímpica”, que suspendia qualquer atividade bélica no decorrer dos jogos. No início do séc. IV d.C., o imperador romano Teodósio I ordenou o incêndio do templo de Zeus e a proibição dos jogos, acabando com a fortuna da cidade de Olímpia. E, pela infinita estupidez do gênero humano, este último imperador romano (antes da divisão do poder entre o Ocidente e o Oriente), bárbaro da Gália, passou à história como Teodósio o “Grande”, por ter imposto o Cristianismo como religião de Estado e acabado com a cultura greco-romana, dando origem ao longo período medieval, dominado pela Igreja católica, que paralisou a civilização européia por quase um milênio.

O princípio clássico da “mente sadia num corpo sarado” foi substituído pela norma cristã da “alma pura num corpo castigado” pela penitência, projetando a felicidade num outro mundo. O que era prazer corporal se tornou pecado. O culto do físico foi retomado no Renascimento, mas apenas no fim do séc.XIX chegou ao seu apogeu com o início das Olimpíadas modernas, instituídas pelo empenho admirável do francês Pierre de Coubertin, que lutou para criar o primeiro Comitê Olímpico Internacional, que organizou a primeira competição moderna na cidade de Atenas, em 1896. Hoje em dia, as Olimpíadas representam a expressão máxima do progresso do esporte, nas modalidades mais praticadas no mundo inteiro, sempre com a finalidade de melhorar a condição física do homem, cada vez mais superando limites anteriormente considerados inatingíveis. Abaixo das Olimpíadas, o espetáculo esportivo mais empolgante é a Copa do Mundo na modalidade do futebol, também realizado a cada quatro anos e nos anos pares, intercalados com os jogos olímpicos.

As disputas esportivas estimulam a competividade sadia, que promove o progresso e irmaniza os povos, enquanto as guerras semeiam o ódio que divide as nações. Se os jovens de todo quadrante fossem ensinados a usar mais bolas do que armas, o mundo seria outro. Mas, além do corpo, precisamos educar a mente e o coração. Os gregos inventaram não apenas as olimpíadas, mas também a filosofia, a poesia épica e lírica, o teatro, as artes plásticas, a cidadania. Eles nos ensinaram que a educação do ser humano deve ser tridimensional: exercitar a inteligência (pelo estudo), o coração (pelo culto da afetividade) e o corpo (pelo exercício físico). Se o brasileiro tem capacidade de superar todos os outros povos nas disputas de futebol, por que não pode vencer também a luta interna contra a corrupção e a injustiça social, exercendo seu direito de cidadania pelo voto consciente, escolhendo governantes honestos e competentes, que lhe assegurem educação, trabalho e saúde, no lugar de esmolas demagógicas e eleitoreiras?


 APOLO e DIONÍSIO 

No artigo intitulado “Mito e Realidade”, dizíamos que o termo grego mythos indica uma história fantástica, de origem anônima e coletiva, inventada para tentar explicar fenômenos naturais ou comportamentos humanos, anteriormente ao avanço da filosofia e das ciências. Entre as criações míticas da Grécia antiga, as que mais contribuíram para a formação da civilização ocidental são as configurações de Apolo e Dionísio, que estão ao centro de duas concepções de vida. Vamos apresentar a “biografia” ficcional dos dois deuses e tentar apontar os sentidos possíveis a partir de seus símbolos.

O mito sobre o astro luminoso do céu, que possibilita a vida na terra, é descrito, na cultura greco-romana, por vários nomes: Apolo, do verbo l (libertar); Febo, de phôs + bios (luz da vida); Hélios, (do grego aïolin: nuance das cores); Sol, do latim solus (o único). Narra o mito que Apolo nasceu, na ilha de Delos, de uma relação adúltera de Júpiter, o pai dos deuses, com a jovem Latona, perseguida pela ciumenta Juno, a esposa de Zeus. O deus-astro tinha a missão de trazer para a terra a luz, o calor e a vida. Toda a manhã, Apolo transportava o coche dourado do Sol (Hélios) para o alto do céu e, à noite, guardava-o atrás das montanhas. O Cosmos devia a ele não só a alternância dia / noite, mas também a mudança das estações: o inverno era causado pela ausência de Apolo, que anualmente viajava para o feliz país dos hiperbóreos, povo mítico que vivia na região do extremo norte, onde não soprava o vento Bóreas. Ligadas à sua prerrogativa fundamental, a luminosidade, estavam as múltiplas funções atribuídas a Apolo: pela luz cósmica, protegia a vida vegetal, animal e humana (patrono dos agricultores, dos pastores e dos navegantes); pela luz intelectual, era o protetor dos médicos e dos artistas; pela luz divina, era o deus dos oráculos, desvendando os mistérios da natureza.

O mito da disputa entre Apolo e Pá (deus dos bosques) representa a vitória da lira sobre a flauta, da música suave e harmoniosa sobre os acordos rudes, da beleza sobre a fealdade, da forma sobre a desagregação, da harmonia sobre a desordem, da medida sobre o excesso, da cultura sobre a natureza, da civilização grega sobre a barbárie asiática. A iconografia de Apolo é uma confirmação figurativa do conceito de beleza apolínea, entendida como harmonia de formas: abstraindo de vários efebos (jovens lindos) as partes corporais mais bonitas, os artistas gregos procuraram chegar à criação de um modelo de beleza masculina, universal e absoluta, em que o todo fosse a resultante de partes proporcional e harmonicamente estruturadas.

Apolo é apresentado, portanto, como o deus de todas as faculdades criadoras de formas. É o deus da luz, da ordem e da harmonia. Surge como uma “aparição” radiosa que revela ao mundo os segredos dos sonhos e desvenda os mistérios da vida. A arte que nele se inspira — a apolínea -- tem como fundamento o sonho, a imaginação, a ilusão, um radical otimismo, a confiança nas forças do homem, considerado capaz de alcançar a vitória sobre o mal e a mentira. Apolo, com a musa Calíope, gerou Orfeu, poeta e músico, venerado pelos gregos porque seu canto abrandava a dor e fascinava homens, animais e até minerais. A dor de Orfeu pela morte da amada Eurídice constitui uma das páginas mais líricas da mitologia clássica. Nas artes plásticas, Apolo é esculpido ou pintado como um belo jovem completamente nu ou coberto por arco e lira, com uma coroa de flores na testa. Suas estátuas mais conhecidas são: Apolo Sauroctone, cópia de um original do escultor grego Praxíteles, no Louvre; Apolo de Kassel, cópia de uma peça de Fídia; Apolo do Belvedere, no Vaticano. Na pintura, o Apolo mais bonito é o de Rafael, em plena Renascença, que se tornou o modelo clássico da beleza masculina. O adjetivo “apolíneo” foi inicialmente utilizado pelo filósofo alemão Nietzsche, em oposição ao “dionisíaco”.

Contrastando com o deus Apolo, Dionísio, o romano Baco, teve uma vida bastante acidentada. Conforme o mito, ele foi por duas vezes filho de Júpiter, daí o apelido de “ditirambo”, que era o nome do hino religioso a ele consagrado. O pai dos deuses, sedutor incorrigível, teve um caso com a princesa tebana Sêmele. Sua esposa Juno (a grega Hera), roída pelo ciúme, provocou a morte da bela jovem, grávida de seis meses. Júpiter, então, realizou o primeiro tipo de parto, que modernamente se chama cesariana: abriu o ventre da princesa morta, recolheu o feto e, porque naquela época não havia estufas, com a mesma faca, fez um corte na sua coxa direta, onde colocou o prematuro, dando continuidade à gestação. Fruto híbrido de um amor divino-humano, Dioniso não foi aceito no Olimpo e precisou conquistar o direito à imortalidade por suas próprias forças. Errou pelo mundo até então conhecido e conseguiu o caminho da glória pela descoberta da uva e do vinho. Tocando flautas ou tamborins, acompanhado pelo cortejo de sátiros, bacantes, centauros e pelos deuses Sileno e Pã, Baco propiciava aos homens e aos deuses alegria e felicidade. Enquanto durava o estado de embriaguez, seus devotos sentiam a presença do deus do vinho dentro de si e se deixavam levar pelos ritos orgíacos, entrando em transe histérico. Dionísio sempre foi considerado pelos gregos como um deus subversivo, pois personificava a desobediência à ordem e à medida, a vida do instinto, a liberdade e o prazer sem limites, a inversão dos valores sociais.

O espírito dionisíaco encontrou sua primeira manifestação artística no coro ditirâmbico que, segundo a maioria dos estudiosos da literatura grega, foi o embrião da tragédia antiga, quando o mito de Dioniso, no lugar de ser apenas contado, passou a ser também encenado. As pessoas, que compunham o coro de *Dioniso, sentiam-se transformadas pela embriaguez e punham de lado a máscara social, manifestando sua verdadeira personalidade. No estado dionisíaco, nos momentos de excitação orgíaca, esquecido de seu status, o homem sentia-se membro de uma comunidade universal em que se quebravam as barreiras de classes. Assim, o homem divinizava-se, o escravo emancipava-se, a crueldade tornava-se prazer, o grotesco misturava-se ao sublime.

Este espírito dionisíaco, vivido também nas saturnálias romanas, persiste em todas as manifestações carnavalescas da cultura ocidental. O mito de Dionísio invadiu Literatura e Artes, ao longo da nossa história. A obra do filósofo-poeta alemão F. Nietzsche (1844-1900) está toda ela impregnada do espírito báquico, ele mesmo definindo-se um “demônio dionisíaco”. Duas de suas obras são fundamentais para entendermos a importância do mito de Baco na evolução do pensamento e da arte européia: A Origem da Tragédia e Assim falou Zaratustra. Nietzsche fala da oposição apolíneo / dionisíaco para indicar duas posturas perante a vida: viver conforme a razão e as ideologias sociais (código cultural) ou de acordo com o instinto da satisfação individual (código natural).


O Mito de EROS

“Erótica é a alma” (Adélia Prado) 

Eros é uma das “Divindades Primordiais”, aquelas que pertencem à “pré-história” da Mitologia grega. Segundo o pensamento órfico (de Orfeu, figura mítica que deu origem a uma doutrina filosófica e religiosa), Eros teria nascido do Ovo primordial (o Caos), engendrado pela Noite, cujas metades se separaram, dando origem à Terra e ao Céu. Ele é o princípio da atração universal, que leva as coisas a se juntarem, criando a vida. Eros é a força que assegura a coesão interna do Cosmos e a continuidade da vida na terra. Para Platão, ele seria um dáimon, uma força espiritual intermediária entre a divindade e a humanidade.

Na cultura romana, Eros é confundido com Cupido, filho de Vênus (a deusa do amor) e de Marte (o deus da guerra), representado como uma criança alada, nua, armada com arco e flechas ou com espada e escudo, símbolo da paixão arrebatadora. Acontece que, com o passar do tempo, se desfigurou o sentido etimológico da palavra “erótico”, reduzindo o conceito a um tipo de satisfação carnal proibida (“sexo sem pecado é como ovo sem sal”, diria o cineasta Luís Buñuel), à nudez, à sacanagem, aos filmes pornôs. Confundiu-se Eros com Priapo, o deus do sexo, representado com um falo enorme, protetor dos reprodutores e símbolo da procriação.

O Eros verdadeiro é o deus do amor no seu sentido integral, que engloba corpo e alma. A atração puramente física é animalesca e não humana. É apenas o bicho que tem o período do cio. O homem e a mulher se amam (ou deveriam se amar!) sempre e em todos os lugares por uma comunhão de sentimentos que transcende o aspecto corporal. O erotismo, que verdadeiramente funciona e que faz perdurar a atração recíproca por longo tempo, está no olhar apaixonado, na admiração que o amante sente pelas qualidades físicas e espirituais que consegue enxergar na pessoa amada. O erotismo, que realmente e de uma forma mais duradoura estimula o desejo, se encontra na poesia lírica, na pintura, na dança, nos filmes sentimentais, na arte em geral, pois supera o nível do real e penetra no mundo da fantasia, do sonho, do vago sentimento do inacessível. Por esse prisma, os Cantos de Salomão e a poesia trovadoresca são mais eróticos do que o Kama Sutra. O erotismo está mais no sugerir do que no mostrar totalmente, no claro-escuro, na promessa do idílio, no mistério a ser desvendado, na repetição do ato do amor como se fosse sempre pela primeira vez. Como diz a poeta Adélia Prado, “erótica é a alma”! Só que conhecer o espírito de alguém é bem mais difícil do que lhe conhecer o corpo. Manuel Bandeira nos oferece uma reflexão interessante a respeito:

 “Deixa o teu corpo entender-se com outro corpo. Porque corpos se entendem; as almas, nem sempre”.

E, sobre a renovação do desejo erótico, esta bela imagem do poeta Mário Quintana: “amar é mudar a alma de casa”. Enfim o erotismo, entendido como prática do amor num sentido bem geral, é onipresente a qualquer atividade humana bem sucedida. A escritora Lygia Fagundes Telles afirma acertadamente: “Vocação é ter a felicidade de ter como ofício a paixão”. Mas é a escritora existencialista francesa, Simone de Beauvoir, companheira do grande poeta-filósofo Jean-Paul Sartre, quem melhor define a essência da relação carnal:

“O erotismo implica uma reivindicação do instante contra o tempo, do indivíduo contra a sociedade”.


Mito e psique humana

Todo povo ou agrupamento social tem seus mitos. A civilização ocidental está permeada de três grandes mitologias: greco-romana, judaica e cristã. Com o avanço do pensamento reflexivo e das descobertas científicas, o mito se transforma em lenda, povoando as obras de arte literária (poesia, narrativa, drama) e plástica (pintura, escultura, arquitetura, cinema). Limitando-me à mitologia grega, faço uma leve referência às principais histórias fantásticas que fecundaram nossa cultura e serviram de base para a exploração do subconsciente, colaborando para o surgimento da psicanálise.

Eros (Amor), junto com o Fado (Destino), é uma das divindades primordiais por pertencer à “pré-história” da mitologia grega, estabelecendo a passagem do Caos para o Cosmos. O Ovo inicial (semelhante ao núcleo do Big Bang imaginado pelos cientistas), ao explodir, teria se dividido em duas partes, dando origem a Urano (Céu) e a Gaia (Terra). O deus Eros, simbolizando a força cósmica da atração universal, reconstrói a unidade original, juntando o elemento masculino com o feminino. Este mito é retomado nas configurações do Andrógino (o ser humano, originariamente bissexuado, só mais tarde dividido por Júpiter) e do Hermafrodito (filho de Mercúrio e de Vênus, ser de natureza dupla): o amor une o que a divindade (ou a autoridade humana) divide.

Da união entre o Céu e a Terra nascem vários filhos (Titãs), que o pai Urano detesta e sepulta em baixo da terra. Até que a grande mãe Gaia consegue esconder Saturno e, com ele, trama a morte do esposo violento: o jovem, na noite em que os pais se juntam para copular, corta os testículos do progenitor com uma foice. O sêmen divino cai no mar formando uma espuma de onde nasce Vênus, a grega Afrodite, a deusa do amor. O filho desta, Cupido, é identificado em Roma com o Eros grego, ao redor do qual se formam várias lendas. A mais conhecida é de “Amor e Psiquê”, que se encontra narrada no Asno de Ouro (Metamorfoses), romance do escritor latino Apuleio.

Com a morte de Urano, da Eternidade se passa para o domínio do Tempo: Saturno é o nome romano do grego Cronos (cronologia), quando começa a História. Mas o Fado (Destino, em Roma), entidade primordial à qual até os deuses devem obedecer, já determinara o castigo de Saturno. Ele também seria destronado por um filho seu: Zeus, correspondente a Júpiter romano, acorrenta o pai no Tártaro, onde fica para sempre. A partir daí, os deuses não se matam mais uns aos outros, pois passam a ser considerados “imortais”: eles têm nascimento, mas não morte. O poeta Homero considera Júpiter como “o pai dos deuses e dos homens”. E Zeus tem uma prole inumerável, pois é amante compulsivo de deusas, ninfas, mulheres bonitas. Ele personifica o todo-poderoso, que se vale da força do poder para subjugar homens e divindades.

A psicologia denomina “complexo de Júpiter” tal arquétipo do machismo e do autoritarismo, de que sofrem governantes absolutistas, pais e professores dominadores. É a “razão do mais forte” que oprime o mais fraco, prevalecendo em qualquer tipo de relações inter-humanas onde domine a violência, especialmente em escolas públicas (fenômeno do bullying), casernas, ambientes subjugados por mafiosos ou narcotraficantes. O arquétipo do autoritarismo se encontra expresso poeticamente na famosa fábula “O lobo e o cordeiro”, do escritor latino Fedro. Outros mitos famosos: Apolo (deus da luz, da ordem, da razão: superego freudiano) e Dioniso (deus do vinho e das forças do instinto: o id da psicanálise); Prometeu, filho rebelde de um Titã, que desafia o poderoso Júpiter, roubando a centelha do foco do Olimpo, com a intenção de igualar o homem à divindade; Édipo, cujo mito é transformado por Freud em complexo, na tentativa de explicar o apego do infante ao peito materno.